Captação de recursos em tempos de mudança: Conheça 12 tendências para acompanhar em 2026
Eu acompanho tendências. Acredito que é essencial, porque nos ajuda a tomar decisões e corrigir a rota quando necessário. Apesar de reconhecer a importância das projeções, “simplificar valores em manifestações de comportamento” é complexo demais. Não sou especialista nisso e nem pretendo ser, pois “prever” o futuro pode ser traiçoeiro quando tudo muda rápido demais.
Eu acredito que, em vez de tentar adivinhar o que o futuro nos reserva, o movimento mais inteligente é projetar o futuro que queremos construir. Sobretudo porque vivemos um contexto de hiperdisrupção. Instituições oscilam, novas tecnologias aparecem, agendas globais se reorganizam, a filantropia muda de rota e a confiança se fragmenta.
O futuro parece incerto porque tudo está mudando – e de forma acelerada -, em várias camadas e ao mesmo tempo, na política, na economia, na cultura, na tecnologia, no clima e por aí vai.
Isso nos força a nos reinventarmos o tempo todo.
Só que existe uma oportunidade bacana quando falamos de reinvenção: criar respostas mais intencionais (que, diga-se de passagem, também é uma tendência!).
Por isso, quando topei o desafio, proposto pela Incentiv, de escrever sobre tendências na captação de recursos, decidi que queria compartilhar mais do que “uma lista de x tendências para ficar de olho”, escrita com a ajuda de uma inteligência artificial qualquer (rsrs!), já que o que é tendência hoje pode estar ultrapassado amanhã.
Sendo assim…quis escrever sobre como aplicar essas tendências (ou não, se não fizer sentido para você) em projetos que vão ajudar a construir o futuro que queremos e não aquele que é imposto a nós.
Em 2026, talvez o diferencial não seja “fazer mais” ou “fazer melhor” e sim fazer com intenção, com presença e com conexão. Acredito que, se nosso olhar está sempre direcionado a alguma tela, a partir de agora olhar no olho passa a ter muita importância.
Este artigo nasce com o recado de “vamos olhar mais no olho” e, claro, de ajudar organizações e iniciativas de impacto a lerem o contexto e adaptarem sua captação de recursos, com intenção.
Sem mais delongas, aí vão as tendências que selecionamos:
12 tendências da filantropia para potencializar a captação de recursos do seu projeto
1) A filantropia também é política
A filantropia opera dentro e a partir do contexto político. Isso significa que críticas, cortes e polarização tornam a doação um campo de disputa. Cresce a atenção à democracia, proteção a liberdades civis e ao risco reputacional. O Johnson Center sintetiza essa tensão como um desafio de fundo para 2026, em que o setor precisa lidar com riscos de imagem e pressão sobre sua autonomia.
“Diante da polarização política e do receio de reações negativas do mercado e do público, marcas passaram a agir com mais cautela, abandonando pautas antes adotadas por modismo e evitando temas considerados sensíveis”. MOL IMPACTO
2) Austeridade e retração: menos previsibilidade recursos
Um padrão aparece em quase todos os materiais analisados: concorrência nos recursos internacionais. O Inside Philanthropy descreve uma “nova era de austeridade”, com cortes governamentais pressionando organizações e aumentando a demanda por diversificação de receita. Portal do Impacto e Painá Impacto reforçam a retração e mudanças geopolíticas, com mais exigências na seleção do investimento social.
A leitura que fazemos é de que 2026 será um ano de pressão orçamentária. Neste cenário, o fortalecimento institucional e atuação em rede das instituições serão cada vez mais necessários.
“2026 será o ano em que o setor começará a fazer as escolhas difíceis que a realidade exige, com financiadores ajudando a viabilizar fusões produtivas, entre outras medidas.” Inside Philanthropy
3) Diversificação de receita não é “apenas” diferencial, é padrão
Diversificar as fontes de financiamento passa a ser a política padrão das organizações. É importante combinar investimento de empresas nacionais, instituições internacionais, recursos públicos, indivíduos e venda de produtos/serviços alinhados à missão. Os materiais analisados também destacam o aumento da filantropia individual como movimento duradouro para diversificação de receita .
“Essa mudança não é temporária. Esperamos que as organizações continuem reduzindo sua exposição ao financiamento governamental e investindo de forma mais profunda em estratégias de grandes doações, pelo menos nos próximos anos.” ORR GROUP
4) Menos doadores, mais concentração
A Phīla Engaged Giving aponta que, em toda a literatura sobre tendências, dois desafios são recorrentes. O primeiro é um problema de participação: há menos doadores realizando investimentos sociais, mesmo com o aumento das necessidades das comunidades e com a redução do apoio governamental.
O segundo é um problema de complexidade, pois à medida que a filantropia se torna mais sofisticada, grandes doadores (como family offices) se veem diante de um paradoxo da escolha: mais instrumentos, mais opções e expectativas maiores.
Painá Impacto aponta o crescimento dos family offices e da agenda de legado, com doação mais criteriosa e profissional, enquanto Inside Philanthropy observa o peso crescente de megadoadores e como eles alteram rapidamente o cenário. O ponto de atenção é que esses atores exigem governança, narrativa alinhada e operam com lógica de portfólio de risco.
“Quando a participação diminui e o capital se concentra, a forma como as decisões são tomadas e a velocidade com que os recursos circulam passam a ter um impacto ainda maior. As maneiras mais rápidas de mobilizar financiamento em grande escala neste momento incluem: Fundos colaborativos, Intermediários confiáveis e Estruturas claras de governança”. Phīla Engaged Giving
5) Transparência e estratégia orientada por dados
Os investidores passam a exigir, cada vez mais, transparência na utilização de recursos. O Observatório do Terceiro Setor descreve a valorização crescente de indicadores, relatórios e avaliação contínua, principalmente em programas e projetos da área da saúde.
Painá Impacto destaca a necessidade de evidências para além de narrativas emocionais; Campaign Pro aponta que a maior concentração de recursos eleva a expectativa por prestação de contas e o Johnson Center defende que mostrar “bom trabalho” é essencial para construir confiança.
“Cresce a expectativa de que organizações apresentem resultados claros e evidências do benefício social gerado. No Brasil, esse movimento se reflete numa maior valorização de indicadores de impacto.” Observatório do Terceiro Setor
6) Inteligência Artificial, de ferramenta para parte da estrutura
A inteligência artificial aparece em quase todos os artigos, mas não só como “automação”. Funding for Good mostra que a maior parte das organizações já usa IA, mas teme privacidade, segurança e desinformação.
Orr Group afirma que IA deixa de ser projeto de inovação e vira infraestrutura central, com treinamentos e agentes sendo incorporados ao cotidiano. A Phīla Engaged Giving chama atenção para poder e agência: quem controla narrativas, quem perde voz e como a IA afeta desigualdade.
Em resumo: 2026 não debate “usar ou não usar IA”, e sim como usá-la com estratégia, ética e impacto.
“Apenas 15% das fundações estão conversando com suas organizações apoiadas sobre temas como políticas de uso de IA e necessidades de suporte.” Funding for Good
7) A confiança define o destino do investimento
De um lado, aponta-se para uma crise de confiança no Terceiro Setor. Do outro, ganha força a filantropia baseada na confiança. Aqui, tendência e contradência caminham juntas, lado a lado.
De acordo com a Pesquisa Doação Brasil, realizada pelo IDIS, o desafio para mobilização de recursos está menos na capacidade de execução e mais em como essa entrega é percebida por quem doa, ou seja, na confiança e na visibilidade de valor gerado.
Para investidores que apoiam organizações sociais, os critérios mais relevantes de seleção incluem confiabilidade e transparência da organização ou de suas lideranças, conhecimento e expertise nas causas, alinhamento de valores e visão de futuro e capacidade de gestão.
Ao mesmo tempo, o movimento Trust-Based Philanthropy (Filantropia baseada na confiança) mostra que muitos investidores estão ampliando o volume de doações livres, sem destinação exclusiva a projetos, além de estarem reduzindo burocracias e priorizando relações mais sólidas e de longo prazo.
“Em um período de turbulência social e política, responder a essas perguntas não é opcional, é essencial. A capacidade do setor de servir às comunidades de forma eficaz depende da crença do público de que as organizações sem fins lucrativos não são apenas bem-intencionadas, mas verdadeiramente capazes de gerar a transformação de que a nossa sociedade precisa.” Johnson Center
O Observatório do Terceiro Setor reforça que parcerias continuadas, com menos exigências, tendem a gerar impacto mais consistente. A Phīla Engaged Giving, por sua vez, destaca que governança e maturidade institucional ajudam a destravar decisões e acelerar o recebimento de recursos.
A leitura é de que, em um cenário de crise de confiança, o recurso tende a ir para quem já possui maturidade institucional reconhecida. As instituições que demonstram transparência, governança e consistência de entrega têm mais capacidade para captar recursos livres, justamente por transmitirem segurança ao doador.
8) Desenvolvimento institucional vira estratégia de captação
Eu arrisco dizer que desenvolvimento institucional (DI) é a palavra do ano e, aqui, vale explicar o porquê: minha pesquisa de doutorado é sobre desenvolvimento institucional como base para sustentabilidade e impacto das organizações. Em 2026, o DI aparece no centro do debate da captação de recursos.
O Portal do Impacto mostra que a maturidade institucional é o que define acesso a financiamento internacional; Painá Impacto afirma que fortalecer a organização “por dentro” deixou de ser opcional e Observatório do Terceiro Setor afirma que uma filantropia madura depende da capacidade das organizações de aprender, se adaptar e trabalhar coletivamente.
“Adaptar-se às mudanças da filantropia internacional não significa abandonar princípios, mas sim construir bases mais sólidas para seguir atuando com impacto, autonomia e sustentabilidade no longo prazo.” Portal do Impacto
Em tempos de mudanças, o desenvolvimento institucional proporciona estabilidade, efetividade e capacidade de articulação com investidores, governos e a sociedade. O recado é simples: para acessar mais recursos, é necessário estrutura.
9) A curadoria também decide para onde o dinheiro vai
A Phīla Engaged Giving aponta que, com a concentração de capital e a complexidade na escolha de onde investir, os fundos ganham protagonismo ao ajudar grandes doadores a decidir seus investimentos sociais.
O Observatório do Terceiro Setor afirma que parcerias intersetoriais conectam organizações com poder público, universidades e pesquisa.
O Globo reforça que, em 2026, ganha relevância a capacidade de traduzir propósito, estratégia e resultados numa linguagem compreensível para conselhos, empresários, investidores e imprensa, além da sociedade como um todo.
“A confiança será o principal ativo, e a curadoria humana, o serviço premium. O valor se deslocará do acesso para a orientação. As lojas do futuro, por exemplo, não serão armazéns de produtos, mas galerias de ideias, onde cada item foi selecionado não por um algoritmo de vendas, mas por um editor de confiança que garante qualidade, ética e relevância cultural.” Box 1824 | Estudo Macrofutures
Nesse contexto de complexidade, a Incentiv se posiciona como uma curadora estratégica de oportunidades de investimento social. Atuamos conectando projetos socioculturais e esportivos a empresas que buscam impacto real através das leis de incentivo. Nossa tecnologia e expertise garantem que o recurso chegue a projetos validados, com transparência e alinhamento aos critérios de ESG e compliance das corporações.
10) Bem-estar não é benefício, é obrigação
Sem pessoas, não existe impacto. Como reforça o Johnson Center, o bem-estar está em risco em tempos de hiperdisrupção, justamente quando o setor é mais exigido a entregar, responder rápido e manter consistência.
A MOL Impacto traduz essa urgência para o cotidiano das organizações ao defender o impacto “de dentro para fora”, com mudanças estruturais no trabalho, atenção aos riscos psicossociais e cuidado como estratégia organizacional, não como benefício periférico.
Os colaboradores são a primeira comunidade de qualquer organização. Por isso, é essencial criar condições reais de cuidado e permanência para quem está na linha de frente.
“As organizações não devem esquecer as lições de crises anteriores: pessoas e grupos que atuam na linha de frente de situações emergentes precisam de descanso, cuidado e recursos. Ao colocar o bem-estar da força de trabalho no centro, abraçar a inovação estrutural e responder estrategicamente às tendências nacionais, as organizações podem construir um futuro mais resiliente e mais eficaz.” Johnson Center
11) Brasil com S, mais local, mais presença, mais pertencimento
A filantropia de 2026 aprofunda o entendimento de que é preciso construir com quem vive no território.
Uma matéria do Globo afirma que impacto sustentável não nasce apenas das capitais e de agendas a distância, mas da leitura real do território e das necessidades que emergem dali.
Essa mesma direção aparece em tendências como “Brasil com S” e o crescimento do desejo por narrativas mais conectadas à cultura latino-americana, que reposicionam pertencimento como ativo social.
Painá Impacto associa isso ao protagonismo comunitário e respeito aos saberes locais, com protagonismo o dos beneficiários em decisões. Phīla Engaged Giving fala de uma volta ao local, com o alerta para o risco de concentrar ainda mais recursos onde já existe centralização de recursos.
O estudo “O Brasil que o Brasil quer ser” reforça a urgência de olhar o Brasil “a partir do Brasil”, rompendo estereótipos e reconhecendo o valor da diversidade social e cultural.
Em resumo, a filantropia de 2026 anseia por investimento com participação real, ouvindo quem conhece o contexto e reduzindo impactos negativos.
“A desigualdade é o que mais nos fragiliza, porque ela envenena as relações sociais no Brasil.” O Brasil que o Brasil quer ser
12) A pauta do clima se reconfigura
A agenda climática deixa de ser assunto paralelo ou transversal. A MOL Impacto reforça que depois da COP30, o clima passa a ser uma camada estruturante de decisão, que redefine critérios de investimento.
O Globo aposta no clima como reorganizador de portfólios, conectando sustentabilidade à desigualdade e risco.
Em 2026, ganha força o investimento capaz de financiar soluções climáticas que também atacam desigualdades e protejam economias locais.
Temas como justiça climática, biodiversidade, restauração ambiental e território ganham centralidade, mas acompanhados de um debate crítico sobre a “descolonização do ESG”. Painá Impacto
O que fica de aprendizado?
As tendências são uma filantropia mais política, mais exigente, mais tecnológica, mais territorial e mais orientada por evidências.
Mesmo sem adaptação ou reconfiguração, já existem milhares de organizações que traduzem impacto com indicadores, que olham para seu desenvolvimento institucional e para o seu território com intenção.
O que a gente precisa, talvez, é que a comunicação seja cada vez mais clara para fora da bolha.
Como a Incentiv pode ajudar na sua jornada de captação
A Incentiv é uma plataforma que conecta projetos socioambientais a oportunidades reais de captação por meio das leis de incentivo fiscais. Atuamos para transformar impostos em impacto social, oferecendo tecnologia, inteligência e suporte estratégico aos proponentes.
Agora, com a nova plataforma, proponentes de projetos tem ainda mais autonomia e acesso a uma rede de valor completa. Aproveite o Incentiv Convida, com conteúdos exclusivos, o Incentiv Responde, com mentorias especializadas, e o Mapa das Leis, com oportunidades atualizadas.
Cadastre seu projeto e potencialize sua captação, pois com a Incentiv sua iniciativa pode ir mais longe.
Sobre a autora
Larissa Gaspar é coordenadora de Sucesso do Cliente na Incentiv, onde lidera a missão de fortalecer o relacionamento com proponentes e impulsionar a captação de recursos.
Jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Larissa é mestre e doutoranda em Engenharia e Gestão do Conhecimento (PPGEGC/UFSC) e especialista em Gestão da Inovação na Comunicação Digital (CESUSC), com pesquisa voltada à inovação em mídia e impacto social no Terceiro Setor.
Com ampla experiência em comunicação, relacionamento e mobilização de recursos, atua há 10 anos conectando organizações sociais a oportunidades de investimento.

