Governança no terceiro setor: o passo a passo para estruturar sua organização

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Toda organização da sociedade civil que deseja crescer com solidez, atrair parceiros e manter a confiança de doadores, beneficiários e do poder público precisa de um alicerce bem construído: a sua governança. Mais do que um conjunto de regras burocráticas, a governança é o que garante que a missão institucional seja preservada ao longo do tempo, com transparência, prestação de contas e processos decisórios claros.

Neste artigo, reunimos um guia prático para quem está estruturando uma organização do terceiro setor ou quer entender melhor como os documentos e órgãos de governança se conectam entre si.

Por que a governança importa

Organizações com processos bem definidos de decisão, fiscalização e participação fortalecem sua relação com associados, beneficiários, parceiros e financiadores. É a governança que sustenta a credibilidade institucional e viabiliza parcerias de longo prazo, inclusive com órgãos públicos.

Passo 1: Defina a personalidade jurídica

Antes de qualquer documento, a organização precisa ter uma forma jurídica. No terceiro setor brasileiro, os dois tipos mais comuns são:

Associação

  • Constituída por pessoas (os associados)
  • Finalidade definida pelos próprios membros
  • Dirigida por Assembleia, Conselho e Diretoria
  • Formato mais flexível e o mais comum entre as OSCs

Fundação

  • Constituída por patrimônio (bens ou recursos)
  • Finalidade definida pelo instituidor, com caráter perene
  • Dirigida por Conselho Curador e Diretoria
  • Fiscalizada pelo Ministério Público

A escolha entre um modelo e outro depende da origem dos recursos e do grau de flexibilidade que a organização deseja ter em sua gestão.

Passo 2: Elabore o Estatuto

O estatuto é o documento que rege o funcionamento da organização. Nele estão definidos direitos e deveres, os órgãos institucionais – Assembleia, Diretoria, Conselho Fiscal – e toda a estrutura de governança.

Um estatuto bem elaborado deve conter:

  • Nome, sede e finalidade da organização
  • Forma de admissão, demissão e direitos dos membros
  • Órgãos de gestão e fiscalização
  • Regras de eleição e mandatos
  • Patrimônio e destinação de recursos
  • Processo de alteração e dissolução

Atenção ao Marco Regulatório (MROSC): o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, instituído pela Lei nº 13.019/2014, estabelece o regime jurídico das parcerias entre a administração pública e as OSCs. Por isso, é fundamental considerar os requisitos dessa legislação já na redação do estatuto – o atendimento a essas exigências pode ser determinante para viabilizar futuras parcerias e o acesso a mecanismos de fomento, como os Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente e os Fundos da Pessoa Idosa.

Passo 3: Formalize as decisões por meio de Atas

A ata é o documento que registra o que foi deliberado em reuniões e assembleias. Ela tem valor jurídico e é indispensável para constituir a organização: é a ata de constituição que formaliza o ato de criação e a aprovação do estatuto.

As OSCs costumam lidar com quatro tipos principais de ata:

Tipo de ata Função
Ata de Constituição Registra as deliberações fundadoras, o quórum de aprovação e as declarações de voto, servindo de base para o registro em cartório
Ata de Assembleia Geral Ordinária Registra a criação da associação, a aprovação do estatuto e a eleição dos dirigentes
Ata de Reunião de Conselho Documenta debates, votações e prazos, garantindo transparência e governança
Ata de Eleição Formaliza a eleição da diretoria e comprova a legitimidade do processo eleitoral

Toda ata precisa ser registrada em cartório e deve conter data, horário, local, participantes, verificação de quórum, os assuntos discutidos, as decisões tomadas, os resultados das votações e os responsáveis pelos encaminhamentos definidos.

Passo 4: Estruture a Assembleia Geral

A Assembleia Geral é o órgão máximo deliberativo de uma associação, formado por todos os associados. É ela quem elege o Conselho Deliberativo, aprova o estatuto (ou suas alterações) e toma as decisões mais relevantes da organização.

Ela se manifesta em dois formatos:

  • Assembleia Geral Ordinária (AGO): realizada ao menos uma vez por ano, aprecia relatórios e contas da Diretoria, elege membros dos órgãos e delibera sobre o orçamento.
  • Assembleia Geral Extraordinária (AGE): convocada a qualquer tempo, conforme a necessidade, para tratar de alteração de estatuto, dissolução da organização ou assuntos urgentes.

Dois conceitos são centrais para o bom funcionamento da Assembleia: o quórum, número mínimo de participantes exigido para validar uma deliberação, e a convocação, o procedimento formal usado para comunicar associados e membros sobre a realização de reuniões. Boas práticas de condução – planejamento, participação, transparência e registro em ata – elevam a qualidade da governança.

Passo 5: Constitua o Conselho Deliberativo ou Curador

O Conselho Deliberativo (nas associações) ou Curador (nas fundações) tem a missão de zelar pelos valores e propósitos institucionais, orientando a gestão executiva sem assumir funções operacionais. Sua atuação se concentra em três frentes:

  • Estratégia: define objetivos alinhados à missão, aprova planos e orçamentos e monitora resultados.
  • Fiscalização: supervisiona a Diretoria, contrata auditoria independente e gerencia riscos.
  • Sustentabilidade: apoia a mobilização de recursos, garante a longevidade institucional e cuida dos processos de sucessão.

Para que o conselho cumpra bem esse papel, três elementos são essenciais:

  • Perfil dos conselheiros: atuação com independência, ética e responsabilidade, priorizando os interesses da organização e declarando eventuais conflitos de interesse.
  • Composição ideal: diversidade de conhecimentos, experiências e trajetórias, o que enriquece a análise sobre os temas institucionais.
  • Disponibilidade: tempo, comprometimento e participação ativa para acompanhar a organização e preparar-se para as reuniões.

Passo 6: Organize a Diretoria Executiva

A Diretoria Executiva é o órgão responsável pela gestão e representação da organização no dia a dia. Enquanto os Conselhos e a Assembleia definem a estratégia, missão e as políticas, a Diretoria define como fazer e executa: contrata, assina contratos, gerencia equipes, administra recursos e presta contas.

Entre suas principais responsabilidades estão:

  • Representar a organização externamente
  • Executar a estratégia institucional
  • Gerir equipes e realizar contratações
  • Administrar recursos e operações
  • Prestar contas aos conselhos
  • Garantir transparência e conformidade em todas as ações da organização

Esse é o princípio da accountability: a organização deve prestar contas regularmente aos seus stakeholders, disponibilizando informações relevantes de forma clara, tempestiva e acessível.

Em resumo, o Conselho atua em nível estratégico – define diretrizes, acompanha resultados e fiscaliza a gestão, sem executar projetos ou administrar equipes. Já a Diretoria Executiva responde pela operação diária, colocando em prática as decisões da Assembleia e dos Conselhos.

Passo 7: Implemente o Conselho Fiscal

O Conselho Fiscal é o órgão de controle interno da organização, atuando de forma independente da Diretoria. Suas funções principais são:

  1. Auditoria interna: examina livros contábeis, balancetes e demonstrações financeiras.
  2. Parecer anual: emite parecer sobre as contas antes da Assembleia Geral.
  3. Independência: age sem subordinação à Diretoria.
  4. Denúncia: pode convocar Assembleia caso identifique irregularidades graves.

Visão geral da estrutura de governança

Reunindo todos os elementos, a estrutura de governança de uma organização do terceiro setor pode ser resumida assim:

  • A Assembleia é o órgão soberano de deliberação.
  • O Conselho Deliberativo ou Curador cuida do direcionamento estratégico.
  • A Diretoria Executiva responde pela gestão e execução.
  • O Conselho Fiscal exerce a fiscalização interna independente.
  • O Estatuto e as Atas são os documentos que fundamentam e registram todas essas decisões.

 

Quando uma organização possui processos claros de decisão, prestação de contas, fiscalização e participação, ela fortalece sua relação com associados, beneficiários, parceiros e financiadores – e constrói as bases para crescer com credibilidade.

Quer se aprofundar em governança e em outros temas essenciais para a gestão da sua organização? Confira os diversos artigos sobre gestão de projetos e instituições aqui no Blog.

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